Relatório sobre El Niño prioriza seguro rural para a safra de verão
Documento entregue ao Ministério da Agricultura reúne medidas para a safra 2026/2027 e propõe monitoramento permanente dos riscos climáticos.
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O fortalecimento do seguro rural antes da intensificação do plantio de verão está entre as prioridades do relatório do grupo de trabalho sobre El Niño. Entregue ao ministro da Agricultura e Pecuária em 24 de setembro de 2026, o documento organiza a resposta em três etapas: a safra 2026/2027, os ciclos seguintes e ações permanentes.
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) reduz o valor pago pelo produtor para contratar a apólice, mediante participação financeira da União. A subvenção incide sobre o prêmio, que corresponde ao preço do seguro.
A indenização por perdas, por sua vez, depende da cobertura contratada. Segundo as informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), pessoas físicas e jurídicas que produzam espécies contempladas pelo programa podem receber o apoio. A contratação ocorre com seguradoras habilitadas, e o subsídio federal admite complementação por estados e municípios.
A exposição a perdas simultâneas é uma particularidade do seguro agrícola, pois um mesmo evento climático pode atingir numerosas propriedades de uma região. O guia do seguro rural do Mapa relaciona esse risco de perdas em larga escala à participação do poder público no custeio das apólices.
Chuvas desiguais ampliam os riscos
O cenário climático ajuda a explicar a mobilização. Em boletim divulgado em 2 de setembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontou tendência de chuvas acima da média em áreas do Sul durante o trimestre de setembro a novembro.
A previsão também alcançava parte de São Paulo e de Mato Grosso do Sul. Para o Norte e o Nordeste, a perspectiva era de um período mais seco. O documento indicava, ainda, maior probabilidade de precipitação abaixo da média em Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo. São projeções regionais, sujeitas ao acompanhamento meteorológico. Elas situam os riscos de falta ou excesso de água.
Tecnologias para diferentes cadeias produtivas
Uma das bases técnicas do trabalho foi o conjunto de 163 medidas elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com participação de especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Cerca de 50 profissionais da Embrapa contribuíram para as recomendações, divulgadas pelo Mapa em 1.º de setembro.
O material distingue 14 medidas aplicáveis ao conjunto da agropecuária, 139 específicas para segmentos produtivos e dez de apoio institucional ou a políticas públicas. Cada recomendação considera o prazo de implementação e as condições necessárias à sua adoção. As propostas abrangem conservação e manejo do solo, escolha de cultivares, planejamento das operações, drenagem, irrigação e estruturas de proteção. Também contemplam diversificação da produção e sistemas que integram lavoura, pecuária e floresta.
A análise alcança grãos, fibras, frutas, hortaliças, pastagens, pecuária, silvicultura, culturas industriais e aquicultura. Embora motivada pelo El Niño, a abordagem considera ameaças recorrentes, como estiagens, calor intenso, geadas, tempestades e incêndios.
O tratamento de cada risco combina prevenção, redução de impactos e instrumentos financeiros. Na pecuária, a nota técnica da Embrapa relaciona o risco de falta de pasto à formação de reservas de silagem e feno. Também trata do abastecimento de água e da oferta de sombra aos animais. Para a irrigação, considera a disponibilidade hídrica, a viabilidade econômica e a regularização ambiental entre as condições de adoção.
Zoneamento conecta plantio e proteção financeira
Para as próximas safras, o grupo recomenda aperfeiçoar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e articulá-lo com boas práticas agrícolas, crédito, seguro e o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), além de ampliar a segurança hídrica. Os estudos cruzam informações sobre clima, solo e ciclo das cultivares para identificar períodos de semeadura com menor exposição a eventos adversos em cada município.
Os resultados são publicados em portarias por cultura e unidade da Federação. Essa definição permite considerar as condições locais de produção, em vez de adotar um calendário único para regiões com regimes de chuva e características de solo diferentes. Segundo o Mapa, a observância das indicações do zoneamento integra as condições de acesso ao Proagro, ao Proagro Mais e à subvenção federal ao seguro rural. O Zarc também serve de referência para agentes financeiros na concessão de crédito.
Estrutura permanente em discussão
O relatório propõe um núcleo de gestão de riscos climáticos extremos, apoiado por painel agroclimático. A estrutura reuniria informações, produziria boletins e alertas e acompanharia os resultados das ações, em articulação com os estados.
O coordenador do grupo, Bruno Leite, também defendeu acelerar o Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) e o Caminho Verde, programa de conversão de pastagens degradadas. A proposta associa adaptação produtiva, assistência técnica e financiamento.
As medidas foram apresentadas como recomendações ao ministério. A ampliação do apoio ao produtor dependerá de sua implementação, com efeitos esperados sobre o custo do seguro, o acesso à assistência técnica e a adaptação dos sistemas de produção.