Lula, o agro e os joelhos: Tereza Cristina rebate cobrança de reverência
Ex-ministra contesta declaração do presidente; juros do Plano Safra, redução dos recursos para custeio e recorde de pedidos de recuperação judicial contrastam com a celebração de palanque.
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A senadora Tereza Cristina (PP/MS), ex-ministra da Agricultura, reagiu no domingo (20/09) à declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que o agronegócio deveria ajoelhar-se diante dele em reconhecimento aos recursos destinados ao setor.
Em publicação no Instagram, a parlamentar afirmou que a liderança de um presidente se revela na sensatez e na capacidade de melhorar a vida da população. “Isso não se faz com bravatas”, escreveu. Sobre a reverência reclamada por Lula, observou que os brasileiros de fé se ajoelham, sim, “mas diante de Deus”.
A cobrança presidencial ocorreu no sábado (19/09), durante um ato de campanha em Florianópolis/SC. Candidato à reeleição, Lula questionou a resistência de representantes do agro ao seu nome e apresentou os recursos destinados à agricultura como razão para receber apoio eleitoral. “Porque se dependesse de dinheiro do governo, eles tinham que não só votar, mas se ajoelhar para mim”, declarou.
O crédito tem preço
As condições de financiamento divulgadas pelo próprio Ministério da Agricultura e Pecuária acrescentam elementos à discussão. No Plano Safra 2026/2027, a taxa anual de custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) é de 9%. Para os demais produtores, chega a 12,5%. Houve redução em relação ao ciclo anterior, quando essas taxas eram, respectivamente, de 10% e 14%.
O subsídio nos juros cumpre uma determinação constitucional, verificável no artigo 187 da Carta de 88. Mesmo assim, o produtor assume uma dívida a ser quitada com os encargos previstos. Em um cenário de alto custo de produção e queda no preço das principais commodities, soma-se às taxas que o campo tem suportado a cobrança presidencial de gratidão política.
Mais no total, menos para custeio
A distribuição dos recursos também impõe ressalvas ao espetáculo publicitário. Segundo a apresentação oficial, o montante programado para a agricultura empresarial passou de R$ 516,2 bilhões, em 2025/2026, para R$ 525,1 bilhões, em 2026/2027, um crescimento nominal de aproximadamente 1,7%. Dentro desse total, contudo, os recursos destinados ao custeio e à comercialização recuaram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, uma retração de 7,2%.
O aumento global decorre da expansão da parcela reservada aos investimentos, enquanto diminui o volume previsto para financiar a produção e sua comercialização. O anúncio de uma cifra maior, portanto, não significa ampliação de todas as modalidades de financiamento. Tampouco o montante programado equivale a recursos já contratados. São distinções necessárias para avaliar o alcance do plano para além do valor destacado na narrativa.
O outro recorde do agronegócio
Enquanto Lula reivindica reconhecimento pelo volume de crédito, os pedidos de recuperação judicial avançam a galope. Segundo a Serasa Experian, o agronegócio registrou 1.990 solicitações em 2025, alta de 56,4% sobre as 1.272 contabilizadas em 2024. Foi o maior resultado anual da série, iniciada em 2021.
No primeiro trimestre de 2026, houve outras 474 solicitações, aumento de 21,9% em relação às 389 registradas no mesmo período do ano anterior. O levantamento abrange produtores rurais que atuam como pessoas físicas e jurídicas, além de empresas da cadeia agropecuária. Em contraponto à euforia presidencial, os números evidenciam as dificuldades, que têm levado produtores a recorrerem à Justiça para reorganizar suas dívidas.
A resposta pelo trabalho
Tereza Cristina destacou que o campo seguirá trabalhando para dar sua contribuição ao país, através do alimento que chega à população, sem condicioná-la a uma profissão de fé no ocupante do Planalto. Os homens e as mulheres do agro continuarão confiando no milagre da colheita e lutando para garantir o sagrado pão de cada dia. Um governante demonstra liderança pela conduta e pelos resultados; e a devoção, para quem tem fé, conserva um destinatário que não disputa eleição.