Grupo de ONGs ambientalistas europeias acusa a JBS de lavagem de dinheiro ligada a desmatamento ilegal na Amazônia
Denúncias foram apresentadas ao Ministério Público dos Países Baixos e a órgãos do Reino Unido, da Irlanda e da Alemanha. Nenhuma autoridade decidiu ainda se abrirá investigação, e a JBS contesta a falta de acesso ao estudo
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A JBS, maior processadora de carnes do mundo, foi alvo de denúncias apresentadas em 4 de novembro de 2026 por um grupo de organizações não governamentais e advogados que atua na Europa, autodenominado Transnational Legal Coalition (TLC), que atribui à companhia suspeita de lavagem de dinheiro associada a desmatamento ilegal na Amazônia.
Segundo o grupo, foram 14 denúncias encaminhadas a reguladores financeiros e autoridades de combate à lavagem do Reino Unido, da Irlanda, da Alemanha e dos Países Baixos, além de uma notícia-crime contra a JBS N.V., controladora do grupo empresarial, apresentada ao Ministério Público dos Países Baixos, onde a empresa tem sede.
As informações sobre o conteúdo das denúncias provêm do comunicado das próprias organizações e de reportagens do Brasil de Fato, da Repórter Brasil, do The Grocer e da Inside Climate News.
O que as organizações alegam
As acusações se baseiam em estudo encomendado à organização neerlandesa AidEnvironment, que cruzou registros oficiais de transporte de gado, cadastros de propriedades rurais e dados de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo as organizações, o levantamento identificou 12.576 fornecedores diretos e indiretos da JBS em Mato Grosso, no Pará e no Tocantins e associou essa cadeia a mais de 6,5 milhões de hectares desmatados entre 1988 e 2026, dos quais 3.393.271 hectares ligados a fornecedores diretos e 3.204.576 a indiretos.
Ainda segundo o estudo, mais de 80% dos fornecedores analisados na amostra apresentariam desmatamento em Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente.
As próprias organizações informam que a maior parte do desmatamento identificado ocorreu antes de agosto de 2008. O dado é relevante porque a Lei 12.651/2012, o Código Florestal, adota 22 de julho de 2008 como marco para a definição de área rural consolidada e submete as supressões anteriores a essa data a regime de regularização diferenciado.
As fontes disponíveis não informam se o estudo distinguiu desmatamento ilegal de supressão passível de regularização, nem como tratou as áreas consolidadas.
A tese jurídica
O argumento do grupo é que o gado criado em áreas desmatadas criminosamente constituiria bem de origem ilícita. Os recursos obtidos com sua comercialização, ao circularem pelo sistema financeiro internacional, ficariam sujeitos à legislação europeia de combate à lavagem de dinheiro. Com base nesse raciocínio, as organizações sustentam que bancos, investidores, auditorias e escritórios de advocacia que mantêm relações com a JBS teriam o dever legal de identificar operações suspeitas, adotar diligência reforçada em situações de alto risco e comunicar irregularidades às autoridades.
A construção depende de duas premissas que as autoridades acionadas ainda precisarão examinar: a existência de crime antecedente, isto é, de desmatamento ilegal segundo a lei brasileira, e o vínculo entre o produto desse crime e as operações financeiras realizadas na Europa. O grupo afirma dispor de evidências de “suposto desmatamento criminoso”, nas palavras de Gearóid Ó Cuinn, diretor da Global Legal Action Network, uma das organizações integrantes.
Quem decidirá e qual a competência
As denúncias têm destinatários e naturezas distintas. Nos Países Baixos, a notícia-crime contra a JBS N.V. foi dirigida ao Ministério Público neerlandês, a quem cabe decidir se instaura investigação criminal. O artigo 51 do Código Penal dos Países Baixos admite a responsabilização penal de pessoas jurídicas, de modo que a controladora pode, em tese, ser investigada como tal. Somente se houver acusação formal o caso chegará ao Judiciário daquele país. Ainda nos Países Baixos, as organizações denunciaram a reguladores os bancos Rabobank e ING, o escritório de advocacia Loyens & Loeff e as auditorias EY e KPMG, prestadores de serviços da companhia.
No Reino Unido, a JBS Global (UK) Limited foi denunciada à National Crime Agency (NCA), órgão de investigação criminal, e à Autoridade de Conduta Financeira (FCA), reguladora do setor financeiro. A denúncia alcança também instituições financeiras, entre elas Barclays, Standard Chartered e a filial londrina do Banco do Brasil. A FCA não julga crimes; atua na supervisão do cumprimento das obrigações de prevenção à lavagem pelas entidades reguladas, com poderes sancionatórios de natureza administrativa.
Na Irlanda e na Alemanha, as denúncias têm como alvo operações da gestora BlackRock Asset Management e foram apresentadas, segundo o grupo, a reguladores financeiros e a autoridades encarregadas da fiscalização das leis contra lavagem de dinheiro. As reportagens consultadas não identificam nominalmente esses órgãos.
Em nenhuma das quatro jurisdições há, portanto, julgamento marcado. As autoridades acionadas decidirão, em primeiro lugar, se há elementos para investigar. Autoridades brasileiras não foram acionadas pelas organizações, segundo as fontes, embora a eventual ilegalidade do desmatamento, pressuposto de toda a tese, seja matéria regida pela lei brasileira.
A resposta da JBS e do Banco do Brasil
A empresa afirmou que a campanha omitiu os dados que fundamentariam as alegações e que não pode se manifestar sem acesso à metodologia do estudo. Sustentou ainda que monitora seus fornecedores de gado na Amazônia desde 2010, por satélite e georreferenciamento, conforme protocolo definido pelo Ministério Público Federal, e que o sistema bloqueia automaticamente fazendas com desmatamento ilegal, áreas embargadas, sobreposição com terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação, ou trabalho análogo ao escravo.
O Banco do Brasil declarou não ter tido acesso à denúncia nem a materiais relacionados à suposta lavagem e afirmou adotar procedimentos de identificação, avaliação e gestão de riscos conforme a regulamentação aplicável e suas políticas internas.
O grupo reúne Mighty Earth, Global Legal Action Network (GLAN), Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), FIND e pesquisadores do King’s College London. As organizações afirmam que as denúncias inauguram uma série de ações coordenadas contra empresas e instituições financeiras ligadas a cadeias produtivas associadas ao desmatamento.