Senado apura crise de endividamento no RS e aponta falhas estruturais no crédito rural

Audiência pública na CRA e CDH revelou que produtores 100% financiados não conseguem pagar dívidas e que inadimplência entre grandes produtores supera 10%

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Senado apura crise de endividamento no RS e aponta falhas estruturais no crédito rural

A Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) e Senado apura crise de endividamento no RS e aponta falhas estruturais no crédito rural em conjunto com a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal realizou audiência pública nesta quarta-feira (19) para discutir o endividamento crítico dos produtores rurais do Rio Grande do Sul. O debate, solicitado pelo senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), reuniu instituições financeiras, entidades do agronegócio e órgãos de controle para avaliar os impactos acumulados de eventos climáticos extremos nos últimos quatro anos.

O senador Hamilton Mourão, integrante da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), classificou a situação como “inédita, profunda e fora da curva”, alertando que o país não pode tratar o tema com morosidade. “A agricultura não pode esperar. Cada dia de atraso compromete renda, emprego, abastecimento e a sobrevivência de milhares de famílias gaúchas. O que está em jogo não é uma conta bancária, é a continuidade da vida no campo”, declarou o parlamentar, que coordenou a audiência com o objetivo de identificar falhas na operacionalização do crédito rural e propor soluções imediatas.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), presidente da CDH, justificou a participação da Comissão de Direitos Humanos no debate ao caracterizar a crise como de natureza humanitária. “Não é só economia. Há suicídio, depressão e crianças vivendo em desespero. A dignidade humana está em risco. Há crianças, idosos, pessoas com deficiência e, sim, casos de suicídio. Isso não é apenas uma crise financeira, é uma crise de vidas em sofrimento”, afirmou a senadora, que solicitou assento para a CDH nos grupos de trabalho que acompanham o tema dentro do governo federal.

O chefe do Departamento de Regulação do Crédito Rural do Banco Central, Cláudio Filgueiras, apresentou dados alarmantes sobre a inadimplência no setor. A média nacional já atingiu 7,9%, enquanto entre grandes produtores ultrapassa 10%. “O produtor que financia 100% do custeio, mesmo com taxas equalizadas, hoje não consegue fechar a conta. O modelo, da forma como está, não se sustenta”, declarou Filgueiras, que informou ainda que 98% de todos os recursos emergenciais das Medidas Provisórias 1.213 e 1.214 de 2024 foram absorvidos pelo Rio Grande do Sul, evidenciando a magnitude da crise local.

Para o representante do Banco Central, o país enfrenta o maior estresse financeiro da agricultura brasileira em décadas, exigindo revisão profunda da política de financiamento rural. A declaração foi respaldada por dados que demonstram a insustentabilidade do modelo atual de custeio agrícola, especialmente para produtores que dependem de financiamento integral da safra.

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, que representou o ministro Carlos Fávaro — em missão na COP30 —, informou que o governo federal já direcionou mais de R$ 32 bilhões ao estado desde o início da crise, sendo R$ 20 bilhões em ações emergenciais e R$ 12 bilhões via MP 1.314/2025. Apesar do volume de recursos, Campos reconheceu que “nenhuma medida emergencial, por maior que seja, resolve uma crise estrutural”, defendendo como prioridade a reformulação do Programa de Seguro Rural.

O secretário destacou a importância do projeto da senadora Tereza Cristina (PP-MS), relatado pelo senador Jayme Campos (União-MT), que propõe o redesenho do seguro rural brasileiro como mecanismo estrutural de proteção aos produtores. A audiência evidenciou o consenso entre parlamentares, técnicos e representantes do setor de que as medidas emergenciais, embora necessárias, não substituem a reformulação dos instrumentos de financiamento e proteção da atividade agrícola no país.

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