Ecos das eleições americanas de meio de mandato aqui no Brasil

O colunista Frederico Favacho destaca que as eleições de meio de mandato nos EUA devem repercutir no comércio internacional. Para ele, o novo Congresso tende a buscar a reversão da política tarifária e a reabertura do Estreito de Ormuz, o que seria positivo para o comércio internacional e para as exportações brasileiras

Por Frederico Favacho

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Ecos das eleições americanas de meio de mandato aqui no Brasil

No dia 3 de novembro de 2026, encerraram-se as eleições de meio de mandato nos EUA para a totalidade da Câmara dos Representantes e para cerca de 1/3 do Senado.

O resultado foi uma expressiva vitória do Partido Democrata, que conquistou a maioria na Câmara e caminha para obtê-la também no Senado, onde ainda restam apurações pendentes.

Essa vitória do Partido Democrata representa um duro golpe para o governo Trump, que até então contava com aquela maioria para dar suporte à sua política doméstica e internacional. Trump ainda conta com uma Suprema Corte majoritariamente favorável a ele, mas é inegável que estas últimas eleições representam um forte abalo ao seu poder.

Não pretendo traçar aqui uma análise política, ainda mais da política interna dos EUA, mas sim entender os possíveis impactos para o comércio internacional e para as exportações brasileiras. Todavia, não posso deixar de iniciar minha análise a partir da constatação de que as eleições foram, sim, um grande plebiscito sobre o governo de Donald Trump e que, nesse sentido, pesou muito para a sua rejeição nas urnas a situação econômica dos eleitores, a chamada affordability, que podemos traduzir como o custo de vida para o americano médio.

Dois fatores contribuíram sobremaneira para o encarecimento da vida dos estadunidenses e ambos estão relacionados ao Direito Internacional. O primeiro, a aplicação de tarifas aos produtos importados, que impactou diretamente o preço desses produtos para os consumidores estadunidenses. O segundo, a guerra contra o Irã, que levou ao estrangulamento na distribuição de combustíveis fósseis e ao aumento do preço do galão vendido nos postos americanos.

São duas decisões de política internacional do governo Trump cujos impactos eram previsíveis, mas foram desdenhados. Duas decisões que já haviam sido testadas no passado e se mostrado totalmente equivocadas.

O sistema do GATT, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, de 1947, não foi uma ideia impensada ou extravagante que alguém impôs ao mundo por bel-prazer, mas o resultado de quase um século de pensamento em prol do livre mercado, desde o Tratado Cobden-Chevalier, de 1860.

O sistema da ONU, de 1945, a âncora do multilateralismo, pensado para servir de fórum para a solução dos conflitos entre os países, duramente fustigado pelo governo Trump, tampouco pode ser ignorado em seus avanços para a paz mundial e a prevenção de disputas bélicas.

O erro de Trump ou mesmo a sua arrogância nesse cenário, com a autointitulada Doutrina Donroe, agora cobra o seu preço.

Em perspectiva, podemos esperar que o novo Congresso americano dê atenção a estes dois temas e busque reverter a política tarifária do atual governo, assim como pressionar pelo cessar-fogo com o Irã e a reabertura do Estreito de Ormuz.

Se de fato esta perspectiva se mostrar correta, as notícias serão alvissareiras para o comércio internacional e especialmente para o Brasil, que, nestes dois últimos anos, atuou para mitigar os riscos trazidos pelas políticas norte-americanas, seja abrindo novos mercados para seus produtos, substituindo o destino de suas exportações originalmente voltadas para os EUA, seja atuando internamente para amortizar o aumento no custo do diesel e da gasolina. O fim das tarifas impostas ao Brasil e a redução do preço dos combustíveis virão, assim, como um impulso extra para a economia brasileira.

 

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