Desafios internacionais para o próximo presidente eleito

O colunista destaca que o ambiente que o próximo incumbente encontrará a partir de 2027 deve ser ainda mais desafiador do que os últimos quatro anos. Precisaremos de um líder que dialogue com o resto do mundo

Por Frederico Favacho

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Desafios internacionais para o próximo presidente eleito

Por ora, entendo ser fundamental deixar algumas considerações em razão das eleições em segundo turno para a Presidência da República e das questões de direito internacional que o presidente eleito não poderá descuidar.

Já me manifestei em outros artigos sobre o momento de instabilidade para o comércio internacional que vivemos especialmente pelos constantes ataques de alguns países aos princípios estabelecidos desde o Acordo Geral de Comércio e Tarifas, o GATT, em 47 e da criação da Organização Mundial do Comércio, a OMC, em 94, com a chamada Rodada Uruguai. Recentemente escrevi novamente sobre essa conjuntura atual, juntamente com Domicio Santos Neto, no texto de abertura do Chambers Agricultural Law 2026 Global Practice Guide que pode ser acessado em: https://gpg-pdf.chambers.com/agricultural-law-2026/.

Assim que, quem quer que seja o presidente eleito para a gestão 2027/2030, não poderá deixar de enfrentar os desafios que já estão postos.

O primeiro deles é o Regulamento Europeu do Desflorestamento (EUDR), que passará a viger a partir de 1º de janeiro de 2027. O EUDR é uma realidade, quer gostemos ou não, e, por isso, deve ser compreendida e, na medida do possível, utilizada em nosso favor, na competição com outros países fornecedores de commodities agrícolas se quisermos manter o mercado europeu como nosso segundo maior destino para nossa produção agrícola. E o EUDR não deve ser visto isoladamente quando, na verdade, por força do acordo Mercosul-EU, os regulamentos europeus se tornam ainda mais relevantes nas relações comerciais entre o Brasil e aquele bloco, se não quisermos perder espaço para os nossos parceiros mercosurenhos.

Dito isso, o maior desafio imediato é não perder o grau de risco país com o qual o Brasil foi identificado, risco standard, situação que certamente impactaria nossas exportações. O fim da Moratória da Soja já serviu de alerta para os europeus e, se experimentarmos um novo crescimento do desmatamento da região da floresta amazônica, certamente haverá uma grita geral dos produtores europeus para aumentar a pressão sobre os nossos produtores, mudando nossa classificação de risco para alto.

E sequer podemos olhar para a China como eventual solução. Ao contrário, este será outro desafio que se imporá ao próximo presidente. O recente anúncio das negociações entre o país asiático e os EUA indicam que as vantagens que obtivemos da guerra tarifária entre esses dois países pode estar no fim próximo. Além disso, o plano da China de chegar à autossuficiência em proteína também contribui para essa conclusão.

Por isso, abrir e manter novos mercados para o agronegócio brasileiro no mercado mundial é imprescindível e isso não se faz sem uma diplomacia forte e competente.

Temos tido um resultado inegavelmente bom nos últimos anos nesse sentido e alguns produtos, especialmente o algodão, tiveram conquistas históricas em termos de inserção mundial e aumento de market-share. É fundamental que esse processo continue e até ampliado.

Nesse sentido, a tradicional diplomacia brasileira de não alinhamento automático com nenhuma potência ou bloco, sejam os EUA, seja a China ou os BRICS, é e sempre foi a melhor solução.

Por fim, o tema das mudanças climáticas e seu impacto na economia mundial, com destaque para o presente El-Niñoe todos os impactos possíveis para as grandes cadeias mundiais do agronegócio não poderá ser ignorado pelo próximo mandatário. Ao contrário, deve servir de base para que o Brasil assuma de vez o protagonismo na discussão mundial sobre energia renovável, mercado de carbono e de pagamento por serviços ambientais e, com isso, aproveite para impor ao mundo seus combustíveis sustentáveis para uso na aviação e no transporte marítimo, vencendo a resistência dos países desenvolvidos que insistem na dicotomia fuel x food como se nossa capacidade de produzir biocombustíveis fosse impactar negativamente nossa capacidade para continuar a produzir alimentos.

Mais uma vez, o Brasil tem tido uma posição de destaque nessas discussões, auxiliado por associações brasileiras como a ABIOVE, a ANEC, CNA, entre outras. É fundamental que o presidente eleito não descuide dessa arena internacional em que deverá se posicionar com segurança e com credibilidade que todo líder estadista deve ter.

 

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