A safrinha quebrou em Goiás, e a conta chega no segundo semestre
Se você plantou a safrinha em Goiás neste ano, não precisa de boletim para saber que a produtividade não fechou a conta. Mas vale entender o tamanho real do problema, porque ele não é só seu: é do estado inteiro, e é da cadeia inteira que financiou essa safra apostando numa colheita que não veio.
Por Rafael Brasil
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Se você plantou a safrinha em Goiás neste ano, não precisa de boletim para saber que a produtividade não fechou a conta. Mas vale entender o tamanho real do problema, porque ele não é só seu: é do estado inteiro, e é da cadeia inteira que financiou essa safra apostando numa colheita que não veio.
Os números confirmam o que já estava evidente no talhão. O boletim da Conab de 21 de maio apontou restrição hídrica severa em Goiás, Minas Gerais, Triângulo Mineiro e parte do Matopiba, com redução de potencial produtivo em praticamente toda a área goiana. Em junho, a StoneXcortou a estimativa de produção do estado para 10,8 milhões de toneladas, dezenove por cento abaixo do que projetava um mês antes. E o dado mais duro veio do Rally da Safra da Agroconsult, no fim de junho: a produtividade média goiana despencou de 127 para 83 sacas por hectare em um único ciclo, uma perda de praticamente um terço, com a área plantada ainda recuando quase seis por cento.
Isso significa que quem fechou o custeio esperando 127 sacas por hectare colheu pouco mais de dois terços disso, com o mesmo boleto do banco, do fornecedor de insumo e da trading esperando na mesa. E o custo de produção deste ciclo ficou pelo menos seis por cento mais alto que o do ano passado, enquanto o preço da saca não subiu na mesma proporção. Não é só uma safra menor. É menos receita com custo maior, num momento de juros altos e crédito mais apertado. Vale registrar que o problema é de Goiás, não do Brasil: Mato Grosso manteve produtividade em torno de 130 sacas por hectare e ajudou a segurar o número nacional. Mas isso não muda nada para quem produz aqui dentro.
O que preocupa não é só a colheita ruim. É o que ela destrava depois. Boa parte do financiamento da safrinha em Goiás é feito via Cédula de Produto Rural, barter com revendas de insumos e adiantamento de tradings, tudo lastreado na expectativa de entregar um volume de grão que, agora, muitos produtores não vão conseguir entregar. Quando isso acontece, ou você recompra volume no mercado para cumprir o contrato, pagando mais caro do que planejou, ou entra em inadimplemento. E esse desequilíbrio não fica só com o produtor: sobe para a cooperativa que financiou o plantio, para a revenda que vendeu insumo a prazo, para o armazém e para a trading que estruturou o contrato. É uma crise que nasce no talhão e sobe até quem nunca colocou uma semente no chão.
Um detalhe importante para quem está nessa situação: a lei permite que o produtor rural, pessoa física ou jurídica, peça recuperação judicial, desde que comprove pelo menos dois anos de atividade regular. Quem já produz há alguns anos e tem essa comprovação disponível não precisa esperar a dívida virar ação de cobrança ou penhora para agir. A recuperação judicial existe justamente para reorganizar o pagamento antes que a situação vire falência ou perda do patrimônio.
O motivo de essa conta só aparecer agora, e não em maio ou junho, é simples: a colheita só se consolidou entre julho e agosto, com a AgRural registrando 69% da área colhida no Centro-Sul apenas no fim de julho. É só neste momento que o produtor tem, na mão, o volume real e consegue comparar com o que havia contratado. É também agora que os CPRs e financiamentos de custeio deste ciclo vencem ou se aproximam do vencimento, junto com a decisão sobre plantar ou não a safra seguinte. Historicamente, é exatamente nesse intervalo, entre três e seis meses depois do evento climático, que a judicialização se concentra. Para este ciclo, isso aponta para uma onda de pedidos de recuperação judicial entre setembro e dezembro.
Se esse é o seu cenário, o pior caminho é esperar o boleto vencer para procurar ajuda. Quanto antes a situação for mapeada, mais opções existem: renegociação direta com o credor, alongamento de prazo, ou recuperação judicial quando a dívida já não cabe mais numa conversa informal. O produtor que se antecipa chega à negociação em posição melhor do que aquele que já está sendo cobrado.