Unigel entra em RJ com dívida de R$ 5,4 bilhões após crise no mercado de fertilizantes

Segunda maior petroquímica do Brasil sucumbe à queda de preços internacionais, alta do gás natural e insucesso em reestruturação extrajudicial

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Unigel entra em RJ com dívida de R$ 5,4 bilhões após crise no mercado de fertilizantes

A Unigel, uma das maiores petroquímicas e fabricantes de fertilizantes do Brasil, entrou oficialmente em recuperação judicial após não conseguir estabilizar suas finanças mesmo com plano de reestruturação extrajudicial homologado em 2024. O pedido foi aprovado pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo em 10 de outubro de 2025, sob o comando do juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho, e envolve dívida declarada de R$ 5,47 bilhões.

O colapso financeiro da companhia, que ocupa a posição de segunda maior petroquímica do país, atrás apenas da Braskem, resulta de combinação de fatores estruturais e conjunturais que atingiram duramente o setor nos últimos anos. A queda abrupta nos preços internacionais de fertilizantes e produtos químicos, o aumento dos custos do gás natural, a competição com produtos importados mais baratos e o insucesso de negociações anteriores com credores formam o quadro que levou a empresa fundada há quase seis décadas a buscar proteção judicial.

A trajetória que conduziu a Unigel à recuperação judicial teve início ainda em 2023, quando a empresa já enfrentava graves dificuldades operacionais. Naquele ano, o aumento do preço do gás natural inviabilizou a operação das plantas de amônia arrendadas da Petrobras, levando a companhia a suspender parte da produção e iniciar processo de recuperação extrajudicial, com dívida então estimada em R$ 4 bilhões.

Em 2024, a empresa conseguiu aprovar plano extrajudicial que incluiu conversão de dívida em capital social, com credores liderados pela gestora de investimentos Pimco ficando com 50% de participação na companhia. A medida, contudo, não foi suficiente para estabilizar a situação financeira da Unigel, que continuou a acumular passivos em meio à deterioração das condições de mercado.

O pedido de recuperação judicial apresentado à Justiça paulista detalha as principais causas do colapso financeiro. Entre os fatores determinantes estão a queda abrupta nos spreads internacionais de produtos químicos e petroquímicos, o excesso de oferta global impulsionado pela expansão produtiva da China, o aumento dos custos do gás natural e outras matérias-primas tornando inviável a produção de amônia e acrílicos, os atrasos em financiamentos que agravaram o desequilíbrio de caixa, e a concorrência com produtos importados mais baratos, que levou à paralisação das duas plantas de acrílicos em abril de 2025.

Além disso, a planta de hidrogênio verde, anunciada pela companhia como projeto inovador e sustentável, teve suas operações suspensas. Equipamentos avaliados em US$ 60 milhões permanecem armazenados na Europa, sem utilização, simbolizando as frustradas tentativas de diversificação da empresa.

Nos últimos dois anos, a Unigel buscou diversas alternativas para evitar o colapso. Após captar R$ 460 milhões em crédito durante a recuperação extrajudicial, tentou novo aporte de US$ 100 milhões com a ARC Capital, mas a operação não se concretizou. As tentativas de reestruturação não conseguiram reverter o quadro de deterioração financeira provocado pela queda nos preços dos fertilizantes e pelo endividamento em dólar, agravado pela alta dos juros globais.

Em agosto de 2025, a empresa conseguiu tutela cautelar de urgência que suspendeu cobranças por 60 dias enquanto buscava mediação com credores. A medida, contudo, não foi suficiente para alcançar acordo que evitasse o ingresso na recuperação judicial.

Ao deferir o pedido, o juiz Paulo Furtado destacou que a recuperação judicial visa "preservar as atividades produtivas e o emprego", garantindo prazo para que a companhia apresente seu plano de reestruturação aos credores. A decisão judicial suspende automaticamente todas as ações e execuções contra a devedora, permitindo que a empresa reorganize suas finanças sob supervisão do Judiciário.

A dívida total declarada pela Unigel no processo de recuperação judicial alcança R$ 5,47 bilhões, sendo aproximadamente R$ 1 bilhão em empréstimos bancários e R$ 750 milhões devidos a fornecedores e credores comerciais. O valor da causa no processo judicial foi estabelecido em R$ 17,5 bilhões, incluindo obrigações futuras e garantias intercompanhias.

Atualmente, a Unigel emprega milhares de trabalhadores e mantém operações em Camaçari, na Bahia, Santo André, em São Paulo, além de unidades adicionais na Bahia e em Sergipe. A empresa informou, em nota oficial, que a recuperação judicial "tem por objetivo viabilizar a readequação da estrutura de capital e a preservação das atividades industriais".

A companhia aposta na entrada em operação da planta de ácido sulfúrico, prevista para dezembro de 2025, como possível ponto de virada. A expectativa é de geração de caixa de até US$ 60 milhões anuais, o que poderia contribuir para redução do passivo e estabilização do fluxo de caixa operacional.

Analistas do setor, contudo, avaliam que o desafio é significativo. O mercado de fertilizantes segue pressionado pela superoferta internacional e pela queda da demanda agrícola global. A agência de classificação de risco S&P Global Ratings rebaixou o rating da Unigel para nota D em agosto de 2025, indicando que a empresa corre risco elevado de não honrar suas obrigações sem injeção significativa de capital.

A crise da Unigel ocorre em momento delicado para o mercado global de fertilizantes. Desde o fim do período de alta de preços provocado pela guerra na Ucrânia, os valores da ureia, amônia e potássio despencaram nos mercados internacionais. No Brasil, concorrentes como Yara, Mosaic e EuroChem também revisaram planos de expansão diante do novo cenário de preços.

A situação da Unigel preocupa o setor agropecuário brasileiro, pois a empresa representa parcela relevante da capacidade de produção nacional de fertilizantes nitrogenados, insumos vitais para o agronegócio do país. A Lei 11.101/05, que regula a recuperação judicial, estabelece prazo de 60 dias, prorrogável por igual período, para que a devedora apresente plano de recuperação aos credores.

O plano deverá detalhar como a empresa pretende reorganizar suas atividades, quitar seus débitos e retomar a viabilidade econômico-financeira. Os credores terão direito de aprovar ou rejeitar a proposta em assembleia geral, sendo necessária maioria qualificada para aprovação do plano.

Com a aprovação judicial do pedido de recuperação, a Unigel entra em novo capítulo de sua história de quase 60 anos. O processo será determinante para definir o futuro da produção nacional de fertilizantes e para medir a capacidade do Brasil de manter independência em insumos agrícolas estratégicos. O desafio da companhia é reconquistar a confiança de credores, fornecedores e investidores, enquanto o setor observa se o grupo conseguirá emergir da crise sem comprometer definitivamente sua estrutura produtiva.

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