“O agro não está em crise”, diz vice-presidente de agronevócio do Banco do Brasil

Gilson Bittencourt afirma que mais de 90% dos produtores estão em dia, mas o banco registra inadimplência recorde de 6,27% na carteira do agro, R$ 43,6 bilhões em provisões e adesão à renegociação abaixo do esperado

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“O agro não está em crise”, diz vice-presidente de agronevócio do Banco do Brasil

O vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, afirmou que o setor agropecuário não vive uma crise, apesar do aumento da inadimplência no banco e no mercado financeiro. “O agro não está quebrado, não está em crise, está pujante”, disse em conversa com a imprensa na semana de 20 de outubro de 2026, segundo a Globo Rural. De acordo com o executivo, mais de 90% dos produtores continuam com as contas em dia e a produção segue forte.

A declaração convive com os indicadores divulgados pelo próprio banco. A inadimplência da carteira de agronegócios do BB estava em 6,27% em julho de 2026, patamar recorde. No primeiro semestre, a instituição mantinha R$ 43,6 bilhões provisionados para perdas associadas à carteira de crédito rural, que soma R$ 421,5 bilhões. A proporção equivale a cerca de 10% da carteira.

Liquidez e patrimônio

Bittencourt reconheceu que há problemas de liquidez no campo, mas avaliou que o setor segue “estruturado e capitalizado”. Segundo ele, os preços das commodities recuaram desde a pandemia, com retorno ao patamar considerado normal, enquanto as terras e o patrimônio dos produtores se valorizaram.

“Vamos encontrar produtores que se apertaram do ponto de vista de preços, mas no conjunto, o setor rural continua produzindo. E isso é importante”, afirmou.

O executivo comparou o cenário atual ao do fim da década de 1980 e meados da década de 1990. Naquele período, segundo ele, o setor reduziu área plantada, investimentos e produção. Hoje, a área plantada permanece estável ou em crescimento, conforme o produto, e as expectativas de produção e produtividade seguem elevadas, o que indicaria manutenção dos investimentos.

Renegociação pela MP 1.376/2026

Bittencourt vê espaço para recomposição da capacidade de pagamento com a reação recente nos preços das commodities, a perspectiva de boa safra 2026/27 e a trajetória de queda dos juros. Nesse contexto, defendeu que os produtores inadimplentes, ou com operações prorrogadas de vencimento curto, busquem a renegociação prevista na Medida Provisória 1.376/2026, que admite prazo de até dez anos para quem teve perdas por clima ou oscilações de mercado.

“O ideal seria que esses produtores inadimplentes, ou quem está com uma operação prorrogada com vencimento mais curto, viesse buscar a renegociação, porque estaria pagando as primeiras parcelas de juros só daqui seis meses, em uma nova safra, com novos preços”, disse.

O BB informou ter chegado a R$ 16 bilhões em dívidas em análise para renegociação pela MP. Segundo o executivo, porém, a adesão dos inadimplentes ficou abaixo do esperado pelo banco, e o cenário de inadimplência ainda não melhorou.

Provisões e exigência de garantias

O recorde de inadimplência pesa nas provisões que o banco é obrigado a constituir. Bittencourt explicou que a renegociação pela MP 1.376/2026 deve reduzir a necessidade de provisão apenas no médio prazo, justamente porque a adesão de inadimplentes ficou aquém do previsto.

“Quando a operação está adimplente e é prorrogada, é uma coisa. Mas quando ela já está inadimplente, e a depender do tempo que está nessa situação, é preciso fazer uma provisão muito alta”, disse. Por esse motivo, o BB vinha aplicando, para contratar a renegociação, exigências da Resolução 4.966/2021 do Conselho Monetário Nacional, como cobrança de entrada ou constituição de garantia em alienação fiduciária.

Segundo o executivo, em alguns casos a reversão da provisão pode ocorrer já com as garantias oferecidas ou no início do pagamento das parcelas. Ele ressalvou que a medida não alcança todos de forma igual e imediata, pois depende das condições de cada operação.

O banco espera estabilizar a inadimplência da carteira de agronegócios no último trimestre de 2026 e projeta o início da queda do índice a partir de 2027.

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