Inadimplência no agronegócio brasileiro cresce e atinge 4% das operações de crédito

Crise financeira no campo é agravada por alta de insumos, juros elevados e queda nos preços das commodities, pressionando produtores e instituições financeiras.

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Inadimplência no agronegócio brasileiro cresce e atinge 4% das operações de crédito

Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro vem enfrentando uma combinação de fatores que comprometeu a rentabilidade e elevou o endividamento rural. A queda nos preços internacionais das commodities, o aumento expressivo dos custos de insumos e a elevação das taxas de juros reduziram as margens de lucro e dificultaram o pagamento de financiamentos, resultando em crescimento da inadimplência no setor.

Segundo dados apresentados durante o Fórum de Crédito e Endividamento Rural, promovido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), a inadimplência entre pessoas físicas e bancos, que concentram entre 80% e 85% do crédito rural, atingiu 5,9% este ano, enquanto os atrasos renegociados representam 15,8% da carteira. Entre as pessoas jurídicas, a taxa é menor, de 0,5%, com renegociações em torno de 6,5%, e nas cooperativas de crédito, o índice de atraso é de apenas 0,4%, resultado atribuído à proteção do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Em instituições públicas, como o Banco do Brasil, os atrasos alcançam 6,3%, com renegociações de 16,4%, acima da média do setor privado.

O economista Fábio Silveira, da MacroSector Consultores, defendeu o aumento do subsídio governamental ao setor, lembrando que enquanto os Estados Unidos destinam cerca de 11% da receita agrícola em apoio público, o Brasil aplica apenas 1,5%. Ângelo Ozelame, fundador da Lucro Rural, ressaltou a necessidade de uma gestão mais racional das fazendas, alertando que em anos de margens elevadas muitos produtores assumiram financiamentos pesados sem considerar riscos de queda de preços e aumento de custos.

Além disso, o desembargador Mário Kono, presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, defendeu o incentivo à mediação extrajudicial, destacando que acordos entre produtores, tradings e instituições financeiras podem evitar processos judiciais longos e a paralisação do setor.

O aumento da inadimplência tem origem em choques conjunturais recentes. Silveira explicou que, a partir de 2022, o custo de fertilizantes disparou devido à guerra na Ucrânia e à volatilidade cambial, enquanto a taxa básica de juros atingiu níveis historicamente altos. No caso da soja, a relação de troca do grão por fertilizante passou de 19 para 24 sacas por tonelada, pressionando ainda mais a margem de lucro dos produtores. Além disso, eventos climáticos adversos, como enchentes no Rio Grande do Sul e secas no Centro-Oeste, contribuíram para agravar a situação financeira.

O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, reforçou que a combinação de alta inflação de insumos, queda nos preços das commodities e catástrofes climáticas aumentou a fragilidade do setor. Apesar disso, o dirigente mantém perspectiva positiva, destacando que a adoção de medidas estratégicas, como aumento de apoio público, gestão financeira racional e renegociação de dívidas, pode evitar o colapso do agronegócio brasileiro.

A inadimplência, que saltou de 2% para 4% nos últimos três anos, evidencia a urgência de soluções estruturais para garantir a sustentabilidade financeira do setor e a continuidade de sua função econômica e social no país.

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