O preço das commodities agrícolas não surge nas Bolsas
Pergunte a qualquer estudante de economia qual é o exemplo perfeito de mercado competitivo e a resposta virá pronta: commodities agrícolas.
Publicado em
Pergunte a qualquer estudante de economia qual é o exemplo perfeito de mercado competitivo e a resposta virá pronta: commodities agrícolas. Produto homogêneo, milhares de compradores e vendedores, preço formado em bolsa, informação simétrica.
A teoria é elegante. A realidade é mais interessante.
Acompanhe comigo a formação do preço de cinco commodities em que o Brasil é protagonista — ou deveria prestar mais atenção:
Soja — cotada na CBOT, em Chicago. Mas o preço que o exportador brasileiro recebe é Chicago + prêmio de exportação + câmbio + logística. O "preço" é, na verdade, uma equação.
Açúcar — negociado na ICE, mas indissociável da paridade com o etanol nas usinas brasileiras e das políticas de subsídio da Índia.
Café — o contrato "C" em Nova York, sensível a cada geada no Sul de Minas.
Algodão — cotado na ICE, competindo com fibras sintéticas e, portanto, com o próprio petróleo.
Cacau — que em 2024 nos deu uma aula de volatilidade: preços multiplicados em poucos meses pela quebra de safra na Costa do Marfim e em Gana.
Até aqui, tudo parece confirmar o manual: oferta, demanda, clima, câmbio, especulação.
Mas há uma pergunta que o manual não responde: se o sistema de preços fosse suficiente, por que esses mercados são justamente os mais densamente CONTRATUALIZADOS do mundo?
Mais de 80% do comércio mundial de cereais circula sob os formulários da GAFTA, associação de comerciantes fundada em Londres em 1878. O açúcar tem a SAL. O algodão, a ICA. O cacau, a FCC. O café, o contrato europeu da ECF. E a soja brasileira embarca sob contratos ANEC, que dialogam com GAFTA e FOSFA.
A resposta foi dada por Ronald Coase há quase 90 anos e traduzida com precisão pelo professor Decio Zylbersztajn: os mercados não funcionam a custo zero. Assimetria de informação, racionalidade limitada, oportunismo — tudo isso gera custos de transação. E no comércio internacional, entre partes de jurisdições diferentes, esses custos explodem.
A volatilidade que vimos no cacau é o exemplo perfeito: quando o preço triplica entre a contratação e a entrega, o incentivo ao inadimplemento se torna quase irresistível. O que segura o mercado em pé não é o preço da tela. É a arquitetura institucional construída pelos próprios comerciantes:
• Contratos-padrão testados por décadas, que uniformizam informação e eliminam custos de negociação;
• Lei inglesa e arbitragem especializada, com árbitros que são traders — julgamento pelos pares, em prazos exíguos;
• Listas de inadimplentes, em que a sanção reputacional vale mais que qualquer execução judicial.
A lição vai muito além do agro e é imprescindível para o mercado internacional de commodities agrícolas:
O preço é apenas a camada visível do mercado. Por baixo dele existe uma engenharia de contratos, garantias e reputação que é o que realmente permite que bilhões de dólares em grãos, açúcar e café cruzem oceanos entre partes que nunca se viram.
Como ensina Zylbersztajn: o mecanismo de mercado é a exceção. O mecanismo contratual é a regra.
Quem opera nesses mercados — produtor, trading, indústria ou advogado — precisa dominar as duas camadas.