O advogado e a justiça.
Vivemos tempos difíceis no mundo do Direito. A construção legislativa não merece aplausos. Até faz lembrar a máxima atribuída ao estadista alemão Otto von Bismarck (1815-1898) de que “leis são salsichas; é melhor não saber como são feitas”. No cipoal de comandos legislativos contaminados de jabotis o advogado é chamado a atuar. Sua tarefa não é nada singela. No Dia do Advogado, pensemos sobre nossa profissão.
Publicado em
Vivemos tempos difíceis no mundo do Direito. A construção legislativa não merece aplausos. Até faz lembrar a máxima atribuída ao estadista alemão Otto von Bismarck (1815-1898) de que “leis são salsichas; é melhor não saber como são feitas”. No cipoal de comandos legislativos contaminados de jabotis o advogado é chamado a atuar. Sua tarefa não é nada singela. No Dia do Advogado, pensemos sobre nossa profissão.
Para tanto, voltemos um pouco no tempo. Estamos no período da Renascença. O ano? 1501. País? Itália. Dedicada e habilmente o grande escultor se coloca diante de um bloco de mármore com mais de 6 metros de altura e de largura que o homem não consegue abraçar.
Com seu ferramental à mão, começa a entalhar a pedra que se mostra insensível aos seus golpes, dentro da qual ninguém vê, exceto o esforçado entalhador, uma figura que virá para marcar a história.
A frieza e a dureza do mármore não lhe sugam o ânimo, mas consomem suas forças.
Como quem vê o invisível, vai batendo por longos três anos para retirar o que excede de pedra, esperando que o remanescente seja perceptível ao olhar humano. E não só percebido, mas também admirado.
Na solidão do trabalho fala consigo mesmo, como se precisasse ouvir uma voz que lhe acalentasse o sonho.
Está certo de que ao final do penoso trabalho ver-se-á recompensado pelo resultado alcançado.
O tempo flui em direção ao grande dia. E ele chegou.
Lá está, para admiração de todos, de forma literalmente concreta, a imagem imponente de David, ogrande Rei de Israel.
Quem visita Florença, na Itália, faz selfie com a obra insculpida por Michelangelo, o notável.
O grande artista florentino é exemplo para o advogado que pretende deixar na história seu legado de luta exemplar.
O advogado foi chamado para materializar diante de olhos incrédulos, a justiça. Afinal, os fatos parecem dizer que ela é somente uma utopia, e nada mais.
Esperando contra a esperança, ele luta pelo bom Direito.
O bom Direito não se constrói, senão no tempo;
O bom Direito não se constrói, senão com esforço;
O bom Direito não se constrói, senão com habilidade.
Assim, diante da letra fria da Lei o advogado aquece o coração para ter ânimo de continuar a batalhar pelo que deseja alcançar.
Seu objetivo está mais à frente. Não pode parar.
Não esmurra o ar, mas o próprio corpo como faz o atleta na corrida de fundo para acordar os músculos quase vencidos pela estafa da disputa.
Para não ser desclassificado, enquanto luta contra o caos, o advogado fala aos próprios ouvidos para prosseguir.
Busca forças aqui e ali, tal qual o peixe que capta oxigênio fora da água para não sucumbir no próprio habitat.
O valente, destemido e invencível causídico, deixando para traz as coisas que para traz ficam, mira o alvo que diante dele está posto, sabendo que não vai para o futuro quem vive no passado.
Enfrenta oposição, mas faz dela combustível.
Encara a resistência, mas é alteres para seus músculos.
Combate na solidão, mas tem o propósito como companhia.
Enfim, entalhou a Lei. Como bom hermeneuta, interpretou-a de forma segura. Ao final, de dentro do comando legal faz surgir o que desde o início perseguiu: a justiça.
Sim, o bom Direito é a justiça in concreto.
Nada foi fácil no seu trabalho, como nada foi fácil no labor de Michelangelo.
É mister lutar, pois se três anos foram consumidos para que Davi, o Rei dos judeus, viesse à tona, muito mais será preciso para que Themis, a deusa da justiça,apareça.
11 de agosto: um dia para relembrar que somos imprescindíveis à administração da justiça (Art. 133/CF).