Crise no campo: Recuperação Judicial dispara e testa a sobrevivência do produtor em 2026

Em recente análise para a Forbes, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e uma das vozes mais influentes do setor, alertou que o ano de 2026 testará a so

Por Filipe Denki

Publicado em

Crise no campo: Recuperação Judicial dispara e testa a sobrevivência do produtor em 2026

Em recente análise para a Forbes, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e uma das vozes mais influentes do setor, alertou que o ano de 2026 testará a sobrevivência econômica do produtor rural brasileiro. Esse prognóstico severo é o reflexo de uma crise que se consolidou em 2025, um ano em que, apesar de safras robustas, o agronegócio foi abalado por uma tempestade financeira perfeita. A combinação de margens de lucro espremidas, volatilidade nos preços das commodities e um endividamento crescente culminou em um recorde histórico de pedidos de recuperação judicial (RJ), transformando este instrumento, antes visto como um recurso extremo, em um protagonista na gestão da crise.

A dimensão do problema é revelada pelos dados da Serasa Experian, que apontam para uma deterioração acentuada da saúde financeira do campo. O terceiro trimestre de 2025 registrou 628 pedidos de recuperação judicial, um aumento alarmante de 147% em relação ao mesmo período de 2024. Esse número representa não apenas o maior volume desde o início da série histórica em 2021, mas também a ponta de um iceberg cujo crescimento acumulado no período atinge 1.181,6%. A crise se espalha por toda a cadeia produtiva, com a cultura da soja sendo a mais afetada, somando 156 dos pedidos, e o estado de Mato Grosso liderando a demanda por este recurso.

A crise atual não pode ser atribuída a um único fator, mas a uma confluência de desafios. Roberto Rodrigues a define como uma "combinação adversa rara", onde custos de produção em alta, preços internacionais em baixa e um custo financeiro incompatível com a atividade agrícola se encontram. "Com juros ao redor de 20% ao ano, a matemática não fecha. Mesmo quem alcança algo próximo de 15% de lucro operacional termina o ciclo no prejuízo", afirma o ex-ministro. Essa pressão é sentida diretamente na rentabilidade, que na cultura da soja, por exemplo, caiu pela metade nos últimos quatro anos, com a margem do produtor arrendatário despencando de 27,2% na safra 2020/21 para apenas 7,3% em 2023/24. Simultaneamente, o endividamento rural cresceu de forma expressiva, com a "carteira estressada" do crédito rural saltando 71% e atingindo R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025.

Diante deste cenário, a recuperação judicial emerge como uma alternativa estratégica, mas que deve ser manejada com perícia. Se por um lado ela oferece um fôlego vital, por outro, o processo é complexo e envolve riscos. Entre os benefícios, destaca-se a suspensão de todas as ações de cobrança por 180 dias, o chamado "stay period", que permite ao produtor reorganizar o caixa. Além disso, a lei possibilita uma renegociação ampla das dívidas, com a chance de obter descontos significativos, que na prática variam de 60% a 90%, e prazos de pagamento alongados, preservando a continuidade da operação. Contudo, a decisão exige atenção a pontos críticos: o momento do pedido é crucial, pois a demora pode inviabilizar o processo; os custos com assessoria jurídica e financeira são elevados; e a negociação com os credores pode ser desgastante, além do estigma da RJ poder dificultar o acesso a crédito no futuro.

As perspectivas para 2026 exigem, portanto, mais do que cautela, mas uma reavaliação estratégica profunda. Com projeções de crescimento modesto para o PIB do agronegócio, entre 0,4% e 1%, e uma recuperação lenta das margens, a sobrevivência dependerá de uma gestão primorosa. A produtividade, como alerta Roberto Rodrigues, torna-se o divisor de águas entre o lucro e o prejuízo. Nesse contexto, o cooperativismo ganha força como uma alternativa para acesso a crédito mais barato e diluição de riscos. Igualmente importante é a gestão de risco, incluindo o uso de hedge e a busca por um seguro rural mais abrangente, cuja baixa cobertura atual expõe a vulnerabilidade do sistema. "Sem seguro não há estabilidade. Sem estabilidade não há crédito. E sem crédito não há tecnologia", resume Rodrigues.

A tendência para 2026, na avaliação apresentada neste artigo, é de manutenção de elevados patamares nos pedidos de recuperação judicial no setor. Os fatores estruturais que geraram a crise em 2025 — juros elevados, custos de produção ainda pressionados e volatilidade de preços — não apresentam perspectivas de reversão significativa no curto prazo. Enquanto a Selic permanecer em patamares elevados e o desequilíbrio fiscal continuar pressionando a inflação, o custo financeiro seguirá incompatível com a realidade do campo. Além disso, o estresse creditício que atingiu 15% da carteira de crédito rural em 2025 tende a se manter ou até intensificar-se no primeiro semestre de 2026, conforme alertam especialistas. Portanto, espera-se que os pedidos de recuperação judicial continuem em níveis elevados, refletindo a persistência da crise de rentabilidade e a busca dos produtores por instrumentos legais que permitam sua reestruturação financeira.

Em suma, a crise de 2025 marca o fim de um ciclo de euforia e o início de uma nova fase para o agronegócio, pautada pela resiliência e profissionalismo. A recuperação judicial é uma ferramenta poderosa, mas seu uso deve ser estratégico e bem planejado. A capacidade de adaptação, a busca por eficiência e a organização setorial definirão os vencedores no campo, em uma era onde a excelência na gestão se tornou o fator decisivo para o sucesso.

Artigos relacionados

Ler no Agro Pujante