Raízen protocola recuperação extrajudicial com R$ 65 bi em dívidas
Joint venture entre Cosan e Shell conta com adesão inicial de mais de 40% dos credores; plano prevê aporte de R$ 4 bilhões pelos controladores e venda de ativos na Argentina por US$ 1 bilhão
Publicado em
A Raízen, empresa de energia e bioenergia controlada por Cosan e Shell, é a detentora do título de maior recuperação extrajudicial da história do Brasil, a empresa protocolou, pedido de recuperação extrajudicial com R$ 65 bilhões em dívidas concursais. O plano conta com o apoio de credores titulares de mais de 40% do valor total da dívida incluída no processo e estabelece um período de standstill de 90 dias, durante o qual ficam suspensas as obrigações de pagamento do principal e de juros das dívidas financeiras reestruturadas. A companhia é assessorada juridicamente e financeiramente.
Estrutura jurídica da recuperação extrajudicial
A recuperação extrajudicial, prevista nos artigos 161 a 167 da Lei 11.101/2005, distingue-se do processo judicial pelo escopo seletivo de credores sujeitos ao plano: apenas aqueles de natureza financeira, bancos, bondholders, detentores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e debenturistas, integram a classe sujeita à reestruturação. Credores operacionais, fornecedores e trabalhistas permanecem fora do plano e continuam recebendo normalmente, o que preserva a cadeia produtiva da companhia em período crítico de pré-safra.
Nos termos do artigo 163 da Lei 11.101/2005, o devedor que obtiver adesão de credores representando mais de 50% do valor total da classe pode requerer ao juiz a homologação do plano, que passará a vincular a totalidade dos credores daquela classe, inclusive os dissidentes. Para alcançar o quórum de maioria simples, a Raízen dispõe dos 90 dias de standstill, durante os quais deve elevar o atual patamar de 40% de adesão. A homologação judicial confere ao instrumento eficácia erga omnes dentro da classe, afastando execuções individuais e tornando o plano oponível também aos credores que não manifestaram concordância expressa.
A estrutura de credores abrange dois segmentos de peso equivalente: instituições financeiras bancárias, responsáveis por aproximadamente metade da dívida total, e credores do mercado de capitais, bondholders, detentores de CRAs e debenturistas, que representam a outra metade. Ambos os segmentos já expressaram adesão correspondente a, pelo menos, 40% do montante global.
Aporte dos controladores e conversão de dívida em participação acionária
O plano de reestruturação prevê injeção de capital de R$ 4 bilhões pelos acionistas controladores: R$ 3,5 bilhões a serem aportados pelo Grupo Shell e R$ 500 milhões pelo Aguassanta Investimentos, veículo de investimento da família de Rubens Ometto, controlador da Cosan. O aporte foi comunicado ao mercado pela Raízen em fato relevante datado de 4 de março de 2026, ocasião em que a companhia sinalizou formalmente a possibilidade de recorrer à recuperação extrajudicial caso não fossem identificadas alternativas suficientes para o fortalecimento da estrutura de capital.
Em paralelo, o plano contempla a negociação da conversão de parcela relevante da dívida em participação acionária. De acordo com fontes familiarizadas com o processo, os credores avaliam converter aproximadamente R$ 16 bilhões do passivo em ações da companhia, o que resultaria na entrada de instituições financeiras e investidores institucionais no quadro societário da Raízen. Esse mecanismo, denominado debt-to-equity swap, é juridicamente viável dentro da recuperação extrajudicial desde que previsto no instrumento de reestruturação e ratificado pelos credores aderentes. Os termos exatos da conversão ainda estão em negociação.
A companhia encerrou o mês de dezembro de 2025 com R$ 17,3 bilhões em caixa. A opção pela recuperação extrajudicial, em vez da judicial, visa precisamente preservar essa posição de liquidez para o cumprimento de obrigações operacionais durante a safra de cana-de-açúcar 2026/2027, período que historicamente demanda elevado capital de giro para o custeio das operações agroindustriais.
Desinvestimento na Argentina e redução de alavancagem
Como parte central da estratégia de desalavancagem, a Raízen planeja a venda de suas operações na Argentina com meta de levantar US$ 1 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,1 bilhões pela cotação atual, até abril de 2026. A operação argentina inclui ativos de distribuição de combustíveis e refinarias sob a marca Shell. O desinvestimento, combinado com o aporte de R$ 4 bilhões dos controladores, tem como objetivo reduzir o índice dívida líquida/EBITDA do patamar atual de 5,5 vezes para um intervalo entre 2,5 e 3 vezes, nível considerado sustentável pelas agências de classificação de risco para empresas do setor de bioenergia e distribuição de combustíveis.
A trajetória de venda de ativos já havia sido iniciada antes do protocolo da recuperação extrajudicial: ao longo de 2025, a companhia alienou as usinas Santa Elisa (R$ 1,04 bilhão) e Leme (R$ 425 milhões), ambas originalmente adquiridas da Biosev, além da usina Continental (R$ 750 milhões) e de projetos de energia solar (cerca de R$ 1 bilhão). A saída formal da joint venture com a Femsa para operação da rede de conveniência Oxxo também ocorreu no mesmo período.
Contexto de deterioração financeira e rebaixamento de rating
A crise financeira da Raízen resultou da convergência de múltiplos fatores adversos ao longo dos últimos quatro anos. A aquisição da Biosev em 2021 por R$ 6,5 bilhões, que visava ampliar o parque sucroalcooleiro, exigiu investimentos contínuos em modernização das plantas industriais sem retorno financeiro proporcional. A elevação da taxa Selic acima de 10% ao ano a partir de 2022 elevou significativamente o custo de refinanciamento da dívida. Eventos climáticos adversos e o aumento das queimadas comprometeram repetidamente as safras de cana, reduzindo a produção de açúcar e etanol. Apostas em novas frentes, como o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e o etanol de segunda geração, não geraram os retornos financeiros projetados no horizonte esperado.
No terceiro trimestre do ano-safra 2025/2026, encerrado em fevereiro de 2026, a Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões, resultado seis vezes superior ao apurado no mesmo período do ciclo anterior. No acumulado dos nove primeiros meses do ano-safra, o prejuízo totalizou R$ 19,8 bilhões. A receita líquida do período de outubro a dezembro de 2025 foi de R$ 60,4 bilhões.
No mesmo dia do protocolo da recuperação extrajudicial, a Moody’s Ratings rebaixou a nota de crédito da Raízen de Caa1 para Caa3, classificação que indica risco de crédito muito elevado e vulnerabilidade significativa a inadimplemento. A agência citou o nível elevado de endividamento e a geração persistente de fluxo de caixa negativo como fatores determinantes da ação de rating. O rebaixamento aprofunda o deterioramento da percepção de risco iniciado em 2024, quando as agências de classificação começaram a revisar suas notas em resposta à alta alavancagem e à geração de caixa insuficiente para cobrir o serviço da dívida.
O processo de recuperação extrajudicial é liderado por Lourival Luz, ex-presidente da BRF e atual diretor financeiro da Raízen. A companhia tem 90 dias, a contar do protocolo do pedido, para elevar o índice de adesão dos credores financeiros ao patamar mínimo de 50% mais um do valor total da dívida incluída no plano, condição necessária para requerer a homologação judicial nos termos do artigo 163, caput, da Lei 11.101/2005.