Em processo de recuperação judicial, Habib’s acumula R$ 70 milhões em dívidas com fornecedores agrícolas

Crise do grupo atinge frigoríficos e indústrias de alimentos em uma cadeia que registrou aumento de 272,7% nos pedidos de recuperação entre 2023 e 2025

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Em processo de recuperação judicial, Habib’s acumula R$ 70 milhões em dívidas com fornecedores agrícolas

O Grupo Gennius, responsável pelas marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall, acumula cerca de R$ 70 milhões em dívidas com fornecedores do agronegócio. Ao ajuizar a Recuperação Judicial 4158804-81.2026.8.26.0100, em 24 de agosto de 2026, o conglomerado declarou passivo de R$ 265,2 milhões. JBS, Seara, Bunge e De Marchi estão entre as empresas com valores a receber.

Os débitos incluem obrigações decorrentes do fornecimento de carnes, óleo de soja, verduras e legumes, estendendo os efeitos da crise às empresas que abastecem as operações do grupo. O conglomerado atribuiu as dificuldades aos efeitos da pandemia e aos juros elevados. Em comunicado divulgado na ocasião do pedido, informou que mantinha suas operações e buscava, com a reestruturação financeira, assegurar a continuidade do negócio.

Para os fornecedores, a incerteza quanto ao recebimento pelas mercadorias vendidas acrescenta pressão a um ambiente de custos elevados e acesso restrito ao crédito. A exposição ocorre após três anos de recordes sucessivos de pedidos de recuperação no agronegócio.

Três anos de recordes

Na série da Serasa Experian, iniciada em 2021, os requerimentos no agro atingiram máximas anuais consecutivas: 534 em 2023, 1.272 em 2024 e 1.990 em 2025. O crescimento acumulado em dois anos foi de 272,7%. Apenas de 2024 para 2025, a alta chegou a 56,4%. Entre as empresas indiretamente vinculadas ao setor, foram registradas 384 solicitações em 2025, avanço de 29,3% sobre o ano anterior.

Na avaliação da Serasa, a combinação de crédito restritivo, custos de produção elevados e endividamento pressionou o fluxo de caixa das operações. O indicador abrange produtores rurais que atuam como pessoas físicas ou jurídicas, além de empresas ligadas à cadeia. A edição mais recente, divulgada em 19 de outubro e relativa ao segundo trimestre de 2026, contabilizou 448 pedidos.

Crédito anunciado e custo do financiamento

Em julho de 2025, o governo federal apresentou o Plano Safra 2025/2026 com R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial. A ampliação dos recursos anunciados veio acompanhada de juros mais altos. No custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), a taxa passou de 8 para 10%. Para os demais produtores, foram anunciados juros de 14% ao ano nas operações de custeio e comercialização.

Ao analisar o lançamento, o Sistema Ocepar reconheceu que o montante bruto poderia atender a demanda do setor, mas ponderou que as elevadas taxas dificultam a contratação. Também apontou maior participação de recursos livres, contratados a taxas não subsidiadas.

Contratos preservados

O processamento da recuperação do Grupo Gennius foi deferido em 25 de agosto pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1.ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo/SP. A KPMG Corporate Finance foi nomeada administradora judicial. O magistrado concedeu tutela provisória para impedir que credores sujeitos à recuperação interrompessem contratos exclusivamente em razão do ajuizamento do pedido. Ressalvou, contudo, a análise individual de cada relação contratual e de sua relevância para a operação das empresas.

Na fundamentação, o juiz considerou indevida a recusa de fornecimento mediante pagamento à vista quando motivada apenas por dívida anterior ao pedido. A proteção contratual foi delimitada por essas condições, sem impor aos fornecedores uma obrigação geral de conceder novos créditos.

Impactos práticos

Para as empresas credoras, a continuidade das vendas e o recebimento dos débitos anteriores constituem questões distintas. Os créditos sujeitos à recuperação serão discutidos no processo, enquanto as relações comerciais permanecem regidas pelos contratos e pelas condições fixadas na tutela judicial.

O caso evidencia que a pressão financeira sobre o agronegócio também alcança as dívidas dos compradores de produtos do setor. Para os frigoríficos e as indústrias de alimentos citados, as perspectivas de recebimento dependerão das condições de renegociação e da capacidade de pagamento do Grupo Gennius.

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