Registros indicam que Moraes alterou minuta de contrato de R$ 131 milhões do Master
Metadados extraídos de celular apreendido na Operação Compliance Zero apontam que perfil vinculado ao Ministro do STF editou documento entre o escritório da esposa e o Banco Master
Segundo apuração do Estadão, publicada nesta terça-feira (01/09), o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes teria aberto e editado uma versão do contrato de prestação de serviços advocatícios firmado entre o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master, à época sob controle de Daniel Vorcaro.
A tratativa começou em 11 de janeiro de 2024, quando Viviane enviou uma minuta contratual a Vorcaro por WhatsApp. Quatro dias depois, o banqueiro devolveu o documento com alterações, informando que havia incluído apenas uma cláusula adicional e pedindo confirmação para prosseguir com a assinatura.
Metadados apontam edição pelo ministro
De acordo com os metadados do arquivo, extraído do celular de Vorcaro em investigação obtida pelo Estadão, a versão devolvida pelo banqueiro foi posteriormente aberta e modificada em uma conta do Office 365 identificada como “Ministro Alexandre de Moraes”. O registro indica que a alteração ocorreu às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, cerca de uma hora e quarenta minutos depois de Vorcaro ter devolvido o arquivo a Viviane. Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece nos metadados como autor original do documento.
O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acessou e editou o contrato, atribuindo o episódio a uma consulta do setor de compliance sobre eventuais impedimentos legais para a contratação.
Valores e pagamentos ao escritório
O contrato final, enviado por Viviane a Vorcaro em 17 de janeiro de 2024 e assinado em 23 de janeiro, previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório, totalizando R$ 108 milhões líquidos. Como os valores foram pactuados livres de impostos, o desembolso bruto projetado chegava a R$ 131,2 milhões.
Documentos enviados à CPI do Crime Organizado apontam que o escritório recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, em 22 pagamentos de aproximadamente R$ 3,6 milhões cada. Os repasses foram interrompidos após a primeira prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos.
Cartões de crédito para os filhos do ministro
Levantamento do Estadão, também citado nesta apuração, aponta que o Banco Master emitiu, em outubro de 2025, cartões de crédito com limite de R$ 300 mil cada para dois filhos do Ministro Alexandre de Moraes. Segundo a reportagem, o administrador do escritório de Viviane Barci entrou em contato com Vorcaro para tratar da emissão, e o próprio banqueiro autorizou o benefício.
Contexto da Operação Compliance Zero
Antes da edição atribuída a Moraes, o contrato já havia passado por alterações conduzidas pelo advogado Leonardo Palhares, da equipe jurídica de Vorcaro, alvo posterior da terceira fase da Operação Compliance Zero. Essa fase, deflagrada em março deste ano, apurou suposta corrupção de servidores do Banco Central para atuarem como informantes de Vorcaro, que foi preso pela segunda vez e segue detido desde então.
O Ministro Dias Toffoli também foi mencionado na investigação, em razão de sociedade com pessoas próximas a Vorcaro em empreendimento no Paraná. O caso pressiona o Presidente do STF, Ministro Edson Fachin, a avançar com proposta de código de ética para limitar relações de magistrados com entes privados, iniciativa que enfrenta resistência de Moraes e Toffoli.