Recuperações judiciais avançam no agro enquanto governo diz não ver impacto na economia
Dados da Serasa Experian mostram crescimento dos pedidos; reestruturações de grandes empresas envolvem redução de empregos, renegociação de dívidas e mudanças nas condições de pagamento a credores.
Em entrevista à imprensa divulgada na terça-feira (01/09), Flavia Renó, assessora especial do ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a equipe econômica do governo federal não identifica, “por enquanto”, impacto dos recentes pedidos de recuperação judicial e extrajudicial sobre a atividade econômica.
Segundo Renó, o governo acompanha os processos, mas não vê uma crise generalizada que justifique intervenção específica. A assessora atribuiu as dificuldades das companhias a uma combinação de juros elevados, problemas internos e mudanças nos modelos de negócio, cujos efeitos precisam ser examinados individualmente. No agronegócio, o avanço das recuperações está documentado. O levantamento da Serasa Experian registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% em relação a 2024 e maior resultado desde o início da série histórica, em 2021.
No primeiro trimestre de 2026, foram contabilizados 474 pedidos, aumento de 21,9% na comparação anual. Entre produtores rurais que atuam como pessoas jurídicas, houve 196 solicitações, avanço de 73,5%. Empresas relacionadas à cadeia do agronegócio apresentaram outros 96 pedidos, alta de 18,5%. O movimento, contudo, não foi uniforme: entre produtores pessoas físicas, os registros recuaram 6,7%. O indicador reúne produtores e empresas de diferentes segmentos da cadeia produtiva.
Durigan e a inadimplência rural
A avaliação sobre a situação financeira do setor também apareceu em uma declaração de Durigan em 17 de junho de 2026. Na ocasião, o ministro da Fazenda participou de uma audiência pública conjunta das comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.
Durigan afirmou que apenas 5% dos produtores rurais com dívidas no Banco do Brasil estavam inadimplentes e acrescentou que “95% do agronegócio brasileiro está bem”. A declaração ocorreu durante a discussão de uma proposta de refinanciamento das dívidas rurais aprovada pelo Senado na semana anterior. O ministro defendeu uma solução negociada com o Congresso, mas manifestou preocupação com a possibilidade de beneficiar produtores que não necessitassem do refinanciamento.
Indicadores gerais
A análise apresentada por Renó não se limitou ao agronegócio. Ao comentar as dificuldades de grandes empresas, a assessora recorreu ao desempenho do comércio para fundamentar o diagnóstico mais amplo da equipe econômica. Ela citou o crescimento de quase 2% das vendas entre janeiro e junho. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam uma expansão de 1,9% no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período de 2025, tanto no varejo restrito quanto no ampliado. Renó também destacou a redução da participação do comércio no total de recuperações judiciais, de aproximadamente 32% em 2015 para cerca de 20%.
Esses indicadores não substituem a análise do agro. O crescimento das vendas informa o desempenho comercial agregado, sem medir diretamente a capacidade de pagamento de cada empresa. Já a participação nas recuperações é uma medida relativa: sua redução, por si só, não demonstra queda no número absoluto de pedidos.
Assim, a expansão das vendas pode coexistir com dificuldades financeiras em determinadas companhias. Para avaliar a extensão dessas dificuldades, também importam o endividamento, as condições de crédito e os efeitos sobre os demais participantes das cadeias produtivas.
BMG Foods e AgroGalaxy: empregos e créditos em negociação
No setor de proteína animal, a recuperação judicial do grupo BMG Foods envolve R$ 3,54 bilhões em dívidas sujeitas ao processo. Mais de 98% desse montante está concentrado na classe dos credores quirografários. A relação abrange instituições financeiras, fornecedores de gado, produtores integrados, produtores rurais e prestadores de serviços.
Na petição inicial, o grupo informou que seu quadro de funcionários havia diminuído de 5.500 trabalhadores, em 2025, para aproximadamente 1.750. A redução ocorreu antes do pedido de recuperação judicial, entre as medidas adotadas para conter a crise. O documento também registra renegociações com financiadores, tentativas de venda de ativos e redução da operação. Trata-se, portanto, de efeitos anteriores à abertura do processo, e não de consequências que possam ser automaticamente atribuídas ao instrumento de recuperação.
A AgroGalaxy, que atua na comercialização de insumos, produção de sementes, originação, armazenamento e negociação de grãos, recorreu à recuperação judicial em setembro de 2024. Documentos examinados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registram o inadimplemento de debêntures que serviam de lastro a certificados de recebíveis do agronegócio (CRA).
A ata da reunião do colegiado da CVM de 26 de agosto de 2025 descreve as alternativas apresentadas aos investidores na reestruturação. Para aqueles que não aderissem à proposta vinculante, estavam previstas debêntures com deságio de 85% sobre o crédito e prazo de pagamento de 16 anos.
Raízen, Lavoro e Heringer: caminhos distintos
As dificuldades financeiras também alcançaram Raízen, Lavoro e Fertilizantes Heringer. A Raízen anunciou, em 11 de março de 2026, um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias, além de créditos entre empresas do grupo. No comunicado, a companhia informou que as obrigações com fornecedores, clientes, revendedores e outros parceiros operacionais ficariam fora do plano e continuariam a ser cumpridas normalmente.
O plano foi homologado pela Justiça paulista em 30 de julho. Segundo informações da Opea, securitizadora de emissões de CRA da companhia, sua implementação ainda dependia do cumprimento de condições previstas na reestruturação. Na distribuição de insumos agrícolas, a Lavoro apresentou, em 18 de junho de 2025, um plano de recuperação extrajudicial que abrangia aproximadamente R$ 2,5 bilhões em obrigações comerciais com fornecedores. O objetivo era alongar os pagamentos e assegurar o abastecimento dos estoques.
Apesar da homologação do plano em novembro daquele ano, o grupo voltou à Justiça. Em 2 de julho de 2026, apresentou pedido de recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 3,18 bilhões. Na nova petição, afirmou que a renegociação anterior e a mediação com credores não haviam sido suficientes para reequilibrar o caixa. Relatou, ainda, fechamento de lojas deficitárias, redução de estruturas administrativas e concentração das operações no Paraná.
A situação da Fertilizantes Heringer exige outra distinção. Em 31 de agosto de 2026, a companhia obteve uma decisão que suspendeu, por 60 dias, execuções, cobranças e medidas de constrição patrimonial promovidas pelos credores convidados a participar de uma mediação. A proteção não alcançou indistintamente todos os credores. O conselho de administração havia autorizado, em reunião de 24 de agosto, medidas de reestruturação que incluíam eventual recuperação extrajudicial ou judicial, caso necessária.
Análise geral exige cautela
Os números da Serasa Experian e os documentos empresariais registram dificuldades financeiras em parcelas do agronegócio. Também é necessário distinguir a crise do mecanismo utilizado para enfrentá-la. A recuperação judicial não implica, por definição, encerramento das atividades ou demissão de empregados. O artigo 47 da Lei 11.101/2005 estabelece como objetivos a preservação da fonte produtora, dos empregos e dos interesses dos credores. O processo busca viabilizar a continuidade de negócios em dificuldades, embora possa envolver mudanças nas condições de pagamento e na estrutura operacional.
Os juros elevados, reconhecidos pela equipe econômica como um dos fatores de pressão, integram esse diagnóstico. Em 24 de julho, durante a Expert XP, em São Paulo, Durigan defendeu o avanço do ajuste fiscal como caminho para alcançar juros mais baixos. A declaração situa o custo do crédito entre os problemas que o próprio governo considera necessário enfrentar.
A avaliação governamental e os casos empresariais tratam, assim, de escalas diferentes. A primeira se refere à ausência, até o momento, de impacto identificado sobre a atividade econômica em seu conjunto. Os segundos documentam redução de empregos, dificuldades de pagamento e renegociação de créditos em negócios específicos. Determinar se esses efeitos permanecerão concentrados ou alcançarão outras empresas e setores exige acompanhar sua duração, a evolução do crédito e o cumprimento dos planos de reestruturação.