A Ilusão da Holding: Porquê você pode estar construindo um castelo de areia
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia da Covid-19 e com as discussões sobre reforma tributária, uma palavra ganhou status de solução milagrosa nos escritórios de advogados e contadores: “holding”
Por Joel Quintella
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia da Covid-19 e com as discussões sobre reforma tributária, uma palavra ganhou status de solução milagrosa nos escritórios de advogados e contadores: “holding”.
Empresários e produtores rurais ouvem a mesma promessa repetida à exaustão: "Crie uma holding, doe as quotas para seus filhos com reserva de usufruto, e você resolve tudo — evita inventário, reduz impostos, protege seu patrimônio, garante a sucessão." Parece simples. Parece perfeito. Parece a solução que você estava procurando. Mas será que é mesmo?
A Verdade Incômoda
Deixe-me ser direto: uma “holding” não resolve conflitos familiares. Ela apenas os congela.
Ao longo de duas décadas atuando na advocacia, vi inúmeras empresas familiares quebrarem. E sabe qual era o padrão? Não era falta de caixa. Não era falta de mercado. Era conflito. Era aquele silêncio que ninguém quer falar. Era aquela divergência que foi varrida para debaixo do tapete. Era aquela mágoa que ninguém resolveu porque estavam tão ocupados com a operação que "não havia tempo para essas coisas".
Quando o patriarca ou a matriarca se vai ou sai da operação repentinamente, tudo aquilo que estava adormecido - silenciosamente - acorda. E acorda com força.
Jogar o patrimônio em uma empresa e distribuir quotas para os filhos com reserva de usufruto pode até ser uma saída para fugir do inventário. Mas em nada altera os interesses divergentes, os pontos de desentendimento, ou aqueles conflitos que estavam ali, invisíveis, esperando omomento certo para explodir.
É como construir um castelo de areia. Bonito à primeira vista. Estruturado. Bem pensado. Mas quando a maré sobe, ele desaba.
O Profissional Errado Faz Toda a Diferença
Aqui está a questão crucial: como você sabe se escolheu um bom profissional para estruturar seu Planejamento Patrimonial e/ou Sucessório ?
Deixe-me listar alguns sinais de alerta. Se seu advogado ou contador não fez nenhum destes, é hora de repensar.
1. Conversas com a Família: Um bom profissional não começa falando de holding. Ele começa ouvindo. Ele quer conversar com você, com seu cônjuge, com seus filhos. Ele quer compreender:
• Qual é a visão de cada membro da família sobre o negócio?
• Quais são os pontos de desentendimento já conhecidos?
• O que ninguém fala, mas todos sentem? Se na primeira ou segunda reunião já estava tudo decidido, algo está errado.
2. Conversa com os Sócios: Se você tem sócios, um bom profissional quer entender a dinâmica.
Qual é a visão deles? Há divergências? Há pontos de agregação? Eles querem trazer a família para dentro do negócio ou preferem manter distância? Essas respostas são fundamentais.
3. Anamnese Familiar e Societária: Existe um termo médico chamado anamnese — é o histórico clínico do paciente. Na sucessão, precisamos de algo similar: um diagnóstico profundo da família e da sociedade. Quem são as pessoas? Como se relacionam? Qual é a história? Quais foram os conflitos passados? Se seu profissional não fez esse levantamento detalhado, ele está construindo sobre areia.
4. A Holding Não Pode Ser a Primeira Resposta: Se nas primeiras conversas o profissional já apresentou a holding como solução, desconfie. A holding é uma ferramenta, não a solução. Pode ser que a melhor estrutura seja outra. Pode ser que você precise de um acordo de sócios antes.
Pode ser necessária a implantação de outras medidas antes de qualquer coisa. E qualquer solução só faz sentido após um diagnóstico completo.
5. O "Para Quê?" Deve Ser Debatido Exaustivamente: Antes de qualquer estrutura, você deve responder: para quê? Qual é o objetivo real do planejamento sucessório? É proteger o patrimônio? É garantir que os filhos tenham oportunidades iguais? É evitar que a empresa seja vendida? É permitir que cada filho escolha seu caminho? É a manutenção do Legado.
Normalmente o patriarca ou a matriaca, justificam uns dois ou três “para que”. Porém, se guiado por um bom profissional, descobrirá que existem muitos outros “para que” que estavam silenciados, pelos receios de gerar conflitos familiar ou societário.
Esses “para que” mudam tudo. E eles precisam vir de você, não do profissional.
6. Estudo da Carga Tributária: Antes e Depois: Um bom profissional faz contas. Ele mostra o cenário atual — quanto você paga de impostos hoje. E depois mostra o cenário futuro — quanto você pagaria com a estrutura jurídica proposta. Ele compara. Ele explica. Ele não vende sonhos; ele apresenta números.
Se isso não foi feito, você está no escuro.
A Família é um Ativo Estratégico
Aqui está a lição que aprendi ao longo de duas décadas: a família é um ativo estratégico de todo planejamento patrimonial e sucessório. Não é secundária. Não é "algo para resolver depois". É o fundamento.
Muitos profissionais que vendem “holding” focam exclusivamente no patrimônio. Quanto vale? Como proteger? Como reduzir impostos? Essas perguntas importam, claro. Mas elas não importam mais do que esta: a família está preparada para isso?
Desconsiderar a família é um erro gravíssimo. É como construir uma casa sem fundação. Pode parecer que está de pé, mas qualquer tremor a derruba.
A Estrutura Correta Vem Depois do Diagnóstico
Por isso, a melhor estrutura jurídica - seja uma holding ou outro tipo societário, um acordo de sócios, uma fundação familiar, ou qualquer outra ferramenta - só pode ser sugerida após um levantamento completo de diagnóstico e anamnese familiar e societária.
Não é o contrário. Não é: "Vamos criar uma holding e depois vemos como a família se adapta."
É: "Vamos entender a família, entender o negócio, entender do patrimônio, entender os objetivos, entender os conflitos, e aí sim - e somente aí - vamos escolher a ferramenta certa."
A Reflexão Final
Se você fez ou está considerando criar uma holding, faça-se estas perguntas:
• Ele conversou com os membros da minha família ?
• Ele conversou com meus sócios?
• Ele fez um diagnóstico profundo da minha situação familiar e societária?
• Ele entendeu profundamente o “para que” eu o procurei e somente as conversas com minha família e sócios, apresentou uma solução jurídica ?
Se a resposta para quaisquer das reflexões acima for "não", recomendo que você repensar no que realmente está fazendo.
Uma holding pode ser excelente. Mas apenas se for construída sobre o alicerce certo. Seu legado merece mais do que um castelo de areia.